Filosofia e Educação
“Fazer filosofia é estar a caminho; as perguntas em filosofia são mais essenciais que as respostas, e cada resposta transforma-se numa nova pergunta. (...) Ela é uma consciência inquieta, insatisfeita com o que possui, mas à procura de uma verdade para a qual se sente talhada” (Huisman e Vergez,1996).
Lendo estas afirmações e o discurso de Morais, é possível compreender qual seria um papel importante da filosofia no âmbito da educação. Como educar é uma ação plurivalente que se inscreve nas quatro grandes vertentes do discurso humano: religiosidade, arte, filosofia e ciência e tecnologia, a filosofia surge como uma ferramenta que possibilita a desfragmentação do ser possibilitando que ele abra todos os seus campos de interesses e possa se tornar um sujeito critico, atuante em uma luta contra a imediateidade.
Para ilustrar esta colocação gostaria de citar uma estória que tem como titulo “História da Rã que não sabia que estava sendo cozida”, nela o autor Oliver Clerc, escritor suíço, descreve o que acontece com uma rã quando ela é colocada em uma panela com água quente e a água é aquecida lentamente. Nessas circunstâncias a Rã não tem consciência e não desperta reação alguma, desta forma ela vai ficando cada vez mais fraca, morrendo aos poucos. Em contrapartida, se essa mesma Rã fosse jogada em uma panela com água a 50 graus, ela teria pulado imediatamente, teria uma reação imediata. Fazendo uma analogia com o que vem acontecendo com nossa sociedade desde a algumas décadas, podemos ver que nós estamos sofrendo uma lenta mudança no modo de viver, para o qual nós nos acostumamos e não nos desperta mais nenhum tipo de ESTRANHEZA (o traço mais constitutivo da condição humana.). Em nome do progresso, da ciência e do lucro são efetuados ataques contínuos às liberdades individuais, à dignidade, à integridade da natureza, à beleza, e à alegria de viver, executados lentamente, mas inexoravelmente com a constante cumplicidade das vítimas, desavisadas, e agora, incapazes de se defender.
É neste contexto que é importante reafirmar o papel da filosofia na realidade educacional tendo a obrigação de fazer o papel desta panela a 50 graus, tornando possível excitar as pessoas, embriagada pela sua rotina e pelo cotidiano, através do acordar de uma mente critica, saltar para a consciência. Em suma: conscientes ou cozidos.
Segundo Morais para se filosofar a educação tem que sair do purismo filosófico e realmente “sujar” as mãos na dura realidade que é hoje as nossas escolas. Temos que saltar como a Rã porque a panela hoje da nossa realidade das escolas e da política educacional já está a uma temperatura insuportável, algo próximo de um incêndio e já se está queimando toda uma cultura, só não se pode deixar queimar a esperança. Lembrando que a consciência da filosofia é uma consciência inquieta, insatisfeita com o que possui, sempre à procura de uma verdade para a qual se sente talhada.
Dando continuidade à analise do discurso filosófico da educação, cabe citar o conceito apresentado por Morais, que ele chamou de “os novos tempos” que questiona até onde os recursos educacionais têm sido usados para auxiliar as gerações de educandos a executarem a ultrapassagem de um apenas “coexistir” para um “conviver”.
Ele coloca o ambiente das escolas como algo frustrante e fruto de um descaso e cinismo de governantes. Prédios feios, maltratados, parecem mais uma delegacia de policia ou outras repartições até menos cuidadas. Diante disto, ele faz uma reflexão sobre as tarefas da filosofia e das ciências humana diante deste cenário dos novos tempos.
Ele conclui que toda forma de conhecimento e toda reflexão filosófica tem que se alimentar da cotidianidade, dessa forma não parece haver problema mais cotidiano do que o da educação e, se a filosofia se legítima na medida em que se alimenta da cotidianidade, não podem os filósofos se negar a “sujar as mãos” no concretamente vivenciado como um problema humano.
Em concordância com Morais, resta suplicar pela ajuda desses pensadores para estimular as pessoas hoje, repetidoras de modelos e formas que são nossos jovens nas escolas, e hoje mais ainda angustiados pela falta de contato humano, contando com os computadores para afastar mais as pessoas, as tornando cada vez mais um simples ícone em um “chat” qualquer.
Para concluir, o filósofo precisa acordar os indivíduos para que não corramos o risco de que no futuro tenhamos somente um exército de “astrônomos” que se encantam com o universo mas só o olham, apenas o apreciam de longe através dos telescópios, e nenhum “astronauta”, aqueles que não se contentam em vê-lo, precisam tocá-lo, senti-lo e atuar. Astronautas autônomos em suas vontades e totalmente conscientes de seu ser verdadeiro e do seu poder de atuar ativamente e transformar o desejável no possível.
"Estar vivo é estar em conflito permanente, produzindo dúvidas, certezas, sempre questionáveis.
Estar vivo é assumir a educação do sonho cotidiano.
Para permanecer vivo, educando a paixão, desejos de vida e de morte, é preciso educar o medo e a coragem.
Medo e coragem em ousar.
Medo e coragem em assumir a solidão de ser diferente.
Medo e coragem em romper com o velho.
Medo e coragem em construir o novo".
Madalena Freire
Referência Bibliográfica
MORAIS, Regis de. Educação Contemporânea: olhares e cenários, Alinea,2003.
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